A Saga

CAPÍTULO 1 - "O fim do começo"

Tudo começou com a saga do jovem goiano Manoel Mirosmar, que cresceu na base da enxada, viola caipira e muita música sertaneja raiz. De infância humilde e sofrida, Mirosmar nasceu na cidade de Anápolis, onde passou a infância assistindo Chaves e programas como Raul Gil e Show de Calouros, da antiga TVS. Mas o seu preferido mesmo era o “Sala Especial”, exibido às sextas-feiras à noite na Record, no final dos anos 80. Ainda menino, migrou com a família para Goiânia, onde seus pais se tornariam caseiros na fazenda de um famoso cantor sertanejo de lindos olhos azuis. O rapaz trabalhava de segunda à segunda nas lavouras de tomate e aos finais de semana à noite ainda cantava em barzinhos da cidade para ajudar seus pais a criarem seus outros onze irmãos. Pois é, eles tinham televisão, mas os pais de Mirosmar preferiam a cama.

Apesar da vida sofrida, o goiano tinha um humor acima da média, e adorava uma putaria. Em certa tarde, surpreendido pela mãe enquanto sodomizava duas cabritinhas no curral da fazenda, Mirosmar foi expulso de casa. Afinal, como não bastava ser reincidente, esta já tratava-se da quinta vez que sua mãe o flagrava se divertindo no curral. Aconselhado pelo pai, o goiano pervertido deixou sua terra natal para buscar maiores oportunidades de trabalho na longínqua capital paulista, enquanto sua mãe esquecia o ocorrido. Empolgado em conhecer a moderna metrópole e deixar de trabalhar na roça, Mirosmar juntou suas tralhas, se despediu da família, amigos e animaizinhos da fazenda, e seguiu para a rodoviária de Goiânia no final da tarde. Na manhã do dia seguinte, desembarcava na famosa rodoviária Tietê.

Chegando em São Paulo, Mirosmar enfrentou inúmeras dificuldades, preconceito, e conheceu a miséria. A saudade do lar crescia a cada dia, mas a determinação do goiano lhe deu forças para superar essas dificuldades e seguir seus objetivos. Mirosmar dormia em albergues e fez todo tipo de trabalho possível, chegando a trabalhar como michê, dançarino de boate gay e até faxineiro de um tradicional e já extinto barzinho de Rock chamado Black Jack. Este seria um divisor de águas na vida do jovem sertanejo. Foi nesse local que o goiano teve o primeiro contato com o Heavy Metal, e imediatamente se tornou fã de bandas como Iron Maiden e Sepultura.

Mirosmar então decidiu montar uma banda de Metal, mas seu timbre sertanejo e esganiçado e seu inglês falcônico impediam seu êxito nos testes, tornando-o motivo de chacota no cenário Metal. Mas Mirosmar nunca renegou seu passado e apesar de seu fascínio pelo Metal pesado, jamais deixou de cultuar seus ídolos Xororó, Donizete e Zezé Di Camargo. Passava o dia cantarolando sucessos do cancioneiro sertanejo intercalados por petardos do Iron Maiden, Judas Priest e Manowar, o que motivou os donos do Black Jack a expulsá-lo do bar, num ímpeto de preconceito e radicalismo: “Tira essa camisa preta!...Tira essa camisa preta e some daqui!...Você não é Metal, você é CAI-PI-RA!!”.

Presenciando a cena, um holandês, cliente vip do bar, ficou sensibilizado e convidou Mirosmar para encher a cara com ele num puteiro da Zona Leste da cidade, conhecido como Castelinho. A sorte do jovem goiano mudaria naquela madrugada. Chegando no puteiro, onde o holandês também era vip, Mirosmar foi apresentado para Manoel Jeremias, Manoel Epaminondas e Manoel Margarida, músicos da banda fixa do puteiro. Depois de muitas cervejas, Mirosmar descobriu que além do primeiro nome em comum, os músicos também dividiam com ele outra improvável afinidade, o gosto pela música brega e a idolatria pela banda Manowar.

Os músicos precisaram voltar ao palco do puteiro e, cientes do passado de Mirosmar, resolveram convidar o jovem goiano para uma canja num dos maiores clássicos sertanejos de todos os tempos, "Evidências" de Chitãozinho & Xororó. Ainda ultrajado por há horas atrás ter sido açoitado do barzinho de Rock onde trabalhava por conta de sua origem sertaneja, Mirosmar subiu ao palco emocionado e colocou toda sua alma para interpretar tal clássico, o que fez o puteiro aplaudi-lo de pé. Empolgados, os músicos começaram a improvisar palhetadas pesadas e acelerar o andamento da música. Nascia então aquele que viria a ser o embrião da versão de um futuro sucesso.

Ao final daquela noite, acometidos pela emoção que dividiram no palco e perplexos pela incrível coincidência de todos terem em comum Manoel como primeiro nome, a paixão pelo Metal e música brega, e fanáticos pela banda Manowar, decidiram montar uma banda saudando todas essas afinidades. Assim surgiu o "Manowel".

O goiano, que há poucas horas antes havia sido humilhado, agora parecia que finalmente veria seu sonho tornar-se realidade. Era julho de 2004 e naquela mesma semana Mirosmar foi numa tarde ao apartamento de Jeremias registrar, em poucos minutos, os vocais do que seria a demo do agora então primeiro sucesso do grupo, o petardo "Heavydências". Apesar de ter sido gravada no computador do quarto do apartamento de Jeremias sem qualquer pretensão, com pouquíssimos recursos técnicos e qualquer experiência anterior de Mirosmar em gravações, "Heavydências" vazou na Internet e tornou-se um fenômeno imediato.

Mas como Heavy Metal no Brasil não dá dinheiro e os músicos ganhavam muito bem tocando música brega no puteiro, toda aquela empolgação inicial acabou junto com o efeito da cerveja. Após o hiato de quase um ano, apesar do desinteresse dos demais "Manoéis", a dupla Mirosmar e Jeremias juntou-se novamente em seu home studio numa tarde de maio de 2005 e em poucas horas gravaram a bela balada "Sonho de Matos". Esta singela homenagem ao maior vocalista da história do Metal brasileiro, viria a ser o segundo e também derradeiro registro do grupo que mal chegou a se formar.

Apesar do nome Manowel estar em plena ascensão entre os metaleiros brasileiros, promovendo um intercâmbio ímpar entre os mais radicais seguidores do Metal e os apreciadores da velha e boa música sertaneja, a dificuldade de viver de Metal no Brasil forçou Jeremias a deixar o país para se juntar a uma banda gringa nos EUA, deixando Mirosmar sozinho em sua empreitada, já que os demais só queriam saber de tocar no puteiro.

Desempregado e completamente frustrado, apesar da grande legião de seguidores que o Manowel conquistou com apenas duas músicas Demo, Mirosmar decide tirar o site da banda do ar e voltar para sua terra natal. Este parecia ser o fim do Manowel, e do sonho do sofrido goiano Mirosmar.

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